Um
grande exemplo a um parlamento sem ética
Numa
época em que deputados aumentam os próprios salários
de forma desmesurada, cresce
o exemplo de um homem público do Império brasileiro
que manteve a dignidade acima de tudo
*
Paulo Gomes Lacerda
Alagoano,
como dois dos grandes responsáveis pelo golpe de estado
contra a Monarquia, os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano
Peixoto, o Visconde de Sinimbu era a antítese de ambos.
Jamais aumentou o próprio salário durante o Império
e nunca se vendeu ao poder, morrendo por isso na miséria.
Agora, ao tomarmos conhecimento de que neste momento minguam
os recursos destinados à saúde, educação,
segurança pública e outros serviços essenciais,
mas os parlamentares se conferem um aumento de 91% em seus salários,
fora outros benefícios, o exemplo deixado por João
Lins Vieira Cansansão, o Visconde de Sinimbu deve ser
rememorado e exaltado.
Em
1889, diante dos eventos da proclamação da República,
o Visconde assistiu a morte de sua esposa Valéria Tourner
Vogeler, mulher que amou durante toda a sua vida, e numa ocasião
em que ainda exercia o cargo de conselheiro do Imperador D.
Pedro II e de senador vitalício, postos que perdeu com
o fim da Monarquia. Monarquista convicto e militante, o Visconde
de Sinimbu recusou qualquer tipo de benefício, inclusive
uma pensão mensal equivalente hoje a cerca de R$25.000,00,
conforme carta enviada ao novo governo republicano e na qual
declarou:
"Na
solidão onde vim recolher-me e provisoriamente resido,
retirado da vida pública, após o cruciante golpe
e a suprema desgraça com que aprouve a Deus ferir-me,
enviuvando-me no próprio dia da abolição
da Monarquia, chegou-me a notícia do decreto do Governo
Provisório, concedendo-me a pensão mensal de 500
mil réis. Como resolução que me prescreve
a consciência, me dita a dignidade e me impõe a
honra, rejeito a graça e, salva a intenção,
repilo-a como afronta e como ultraje à minha obscura
pessoa e à minha pobreza honrada".
Qual
de nossos parlamentares de hoje assinaria um documento com teor
equivalente a esse?
Nascido
em 20 de novembro de 1810 na pequena cidade de São Miguel
dos Campos (AL), Sinimbu recebeu seu merecido título
de nobreza concedido pelo magnânimo Imperador D. Pedro
II em 16 de maio e 1888 por seus esforços na campanha
abolicionista e por sua brilhante carreira. Aos 25 anos, formou-se
bacharel em Direito pela Academia Jurídica de Olinda,
tendo obtido seu doutorado na Universidade de Iena, na Alemanha.
Com muito esforço, entrou na magistratura, tornando-se
juiz de Direito na cidade de Cantagalo, em uma carreira pública
meteórica. Foi também chefe de Polícia,
inclusive da Corte e presidente do Conselho de Mineração.
Em 1840, com apenas 30 anos de idade, tornou-se presidente da
Província de Alagoas, equivalente ao atual cargo de Governador
de Estado, deixando o cargo, presidiu interinamente a Província
de Sergipe durante alguns meses e tornou-se embaixador do Brasil
em Montevidéu, Uruguai; e de 1852 até 1855, governou
o Rio Grande do Sul. De 1856 até 1859, governaria ainda
a Província da Bahia, destacando-se por combater o tráfico
de escravos, que considerava odioso; e a imoralidade pública
que condenou em vários de seus discursos.
O
Visconde também incentivou a colonização
do interior da Bahia, de modo a descobrir os diamantes da atual
Chapada Diamantina, que criaram um ciclo de desenvolvimento
na região. Em 1856, tornou-se ainda senador por Alagoas,
cargo que, nessa época, era vitalício e preenchido
apenas pelos homens públicos mais honestos e competentes,
selecionados pelo Imperador a partir de uma lista tríplice
eleita pelo povo.
Em 1859, o Barão de Uruguaiana, então presidente
do Conselho de Ministros, equivalente hoje ao posto de primeiro-ministro,
solicitou ao Imperador D. Pedro II que convocasse Sinimbu para
a pasta dos Negócios Estrangeiros, tornando o
Visconde ministro das relações exteriores do Brasil.
Em 1862, o novo presidente do Conselho, Marquês de Olinda,
mesmo sendo de facção política diametralmente
oposta à de Sinimbu, decidiu convocá-lo para a
pasta da Agricultura, Comércio e Obras Públicas,
tendo em vista a sua competência e experiência comprovadas.
Neste papel, o Visconde de Sinimbú, entre outros feitos,
implantou o sistema decimal de medidas até hoje utilizado
no Brasil. Era grande acadêmico, autor de diversos trabalhos
e livros, tendo conseguido a cadeira número 23 na Academia
Alagoana de Letras.
Finalmente, em 1878, tendo o Duque de Caxias, grande herói
militar do Brasil, se retirado da vida pública, pôde
o Visconde de Sinimbu ocupar o cargo de presidente do Conselho
de Ministros, governando o Brasil em uma época de grandes
sucessos econômicos que precederia à estagnação
dos anos 1880 e 1890. Terminado o seu mandato, tornou-se conselheiro
de Estado, passando a assessorar politicamente D. Pedro II.
Após
o golpe de 15 de novembro de 1889, foi acusado pela falência
do Banco Nacional, que presidia, ocorrida em virtude da desconfiança
internacional gerada após o golpe da proclamação
da República. Logo foi inocentado, diante do ultraje
público que as acusações geraram contra
o honestíssimo Visconde de Sinimbu, agora, aos olhos
da República, apenas o "Cidadão João
Lins Vieira Cansansão".
Sinimbu, que jamais solicitou um aumento salarial e que tanto
se dedicou ao seu País e ao seu Imperador, ofendido pelas
acusações que lhe fizeram os republicanos faleceria
quase centenário e na mais extrema pobreza no ano de
1906. Resta a todos nós espelharmo-nos nesse brasileiro
quase esquecido pela História, mas que martirizado pelos
republicanos renasce agora como exemplo ímpar de dignidade.
*Paulo
Gomes Lacerda, ensaísta
Contato:
news@brasilimperial.org.br