Reis
costumam defender seus povos
Atitude
de Juan Carlos, da Espanha, lembra
papel de D. Pedro II em choque com ingleses
*
Ezequiel Novais Neto
Em
sua condição de chefe de Estado espanhol, o rei
Juan Carlos abriu mão de sua tradicional fleuma e, numa
recente reunião de cúpula ibero-americana, realizada
em Santiago do Chile, falou em alto e bom tom ao presidente da
Venezuela aquilo que muita gente pretendia externar há
tempos ao nascente ditador venezuelano Hugo Chávez : "Por
qué no te callas?" (Por que não te calas?),
disse o monarca antes de abandonar o local em protesto pelos ataques
dirigidos por Chávez ao seu compatriota José Maria
Aznar, ausente no evento, conforme fartamente noticiado pela imprensa.
Causa
espanto à boa parte dos brasileiros o fato de um rei reagir
desta forma quando um seu compatriota é atacado sem possibilidades
de defesa, pela ausência. Esquece-se a maioria, até
pelas distorções de fatos históricos contidos
em nossos adulterados livros escolares de história, que
nosso último imperador, D. Pedro II teve uma atitude similar
a de Juan Carlos, em defesa da brasilidade.
Era
o ano de 1862. Marinheiros ingleses, bêbados e em trajes
civis, provocaram tumultos no Rio de Janeiro, a então Capital
do Império. Foram presos e, confirmada sua condição
de militares, liberados. O inábil e prepotente embaixador
britânico William D. Christie exigiu pedido formal de desculpas
e indenização dos valores contidos em um navio que
fora supostamente naufragado por brasileiros, o Prince of Wales.
No ano seguinte, o almirante inglês Warren promoveu o apresamento
de cinco navios mercantes brasileiros. Diante do inimigo muito
mais forte militarmente, o Governo Imperial pagou, sob protesto,
o valor exigido.
Contudo,
Dom Pedro II solicitou o arbitramento internacional do rei da
Bélgica para a questão dos marinheiros arruaceiros,
exigiu uma indenização pelos navios apresados e
um pedido formal de desculpas pela invasão do litoral brasileiro.
Face à resposta negativa de Londres, o imperador simplesmente
cortou relações diplomáticas com a Inglaterra
em 1863. Nesse mesmo ano saiu o parecer favorável à
posição brasileira. Somente quando o Reino Unido
enviou um pedido formal de desculpas ao Imperador, em 1865, e
após o início da Guerra do Paraguai, é que
foram restabelecidas as ligações diplomáticas
entre as duas nações. O ato de Dom Pedro II seria
o equivalente, hoje, ao de um presidente brasileiro cortar relações
com os Estados Unidos.
Desde
a proclamação da república não se
vê semelhante ato de altivez frente a provocações
estrangeiras, como estamos assistindo ultimamente. Reagir em defesa
da pátria parece ser claramente uma atitude de monarcas,
sem que os preceitos verdadeiramente democráticos nacionais
sejam afetados. Vale lembrar que Dom Pedro II permitia a liberdade
total de expressão, inclusive contra ele próprio
e a Monarquia, algo que o regime republicano, instaurado em 15
de novembro de 1889, dificilmente vem mantendo ao longo de seus
golpes e contragolpes, subvertendo suas próprias instituições.
*
Médico endocrinologista e presidente do
Instituto Brasileiro de Estudos Monárquicos de Minas Gerais
(IBEM-MG)
|