Inverdades
e até triângulo amoroso
na proclamação da República
*
Paulo Gomes Lacerda
Há
117 anos, num dia de 15 de novembro, sem qualquer participação
popular e sequer o apoio de grande parte da elite da época,
proclamava-se a República, um fato político que
deixou marcas profundamente trágicas na história
brasileira.
Relatos
históricos hoje melhor conhecidos contam que, naquele confuso
dia de 1889, comandando algumas centenas de soldados pelas ruas
do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, o marechal
Deodoro da Fonseca, tido como fiel a D.Pedro II, pretendia com
sua movimentação apenas derrubar o então
chefe do Gabinete Imperial (equivalente hoje ao cargo de primeiro-ministro),
o Visconde de Ouro Preto, que, por sua postura liberal, desagradava
aos militares conservadores. Tanto assim que, à frente
da tropa, sua primeira saudação em alta voz foi
"Viva sua majestade, o Imperador", e não uma
saudação à república, instituição
que surgiria oficialmente poucas horas depois.
Segundo
farta documentação a respeito desse episódio,
a decisão final dos conspiradores de derrubar o Imperador
D. Pedro II aconteceu tão-somente na madrugada do dia 15
de novembro, quando um oficial republicano, o major Frederico
Sólon Sampaio Ribeiro, comandante das tropas que cercavam
o Paço Imperial, convenceu Deodoro a proclamar a República,
relatando-lhe nada menos que inverdades. Conforme se sabe hoje,
esse militar teria dito a Deodoro que o novo Presidente do Conselho
de Ministros, supostamente indicado pelo Imperador e que ocuparia
o posto no dia 20 de Novembro, quando também os deputados
eleitos tomariam posse, seria Silveira Martins, inimigo mortal
do Marechal.
Deodoro
e Silveira se rivalizavam na disputa amorosa pela Baronesa do
Triunfo, viúva muito bonita e elegante, de acordo com os
registros da época e que sempre preferiu Silveira Martins
ao marechal. Na verdade, o novo Presidente do Conselho de Ministros
seria o Conselheiro José Antônio Saraiva, diplomata
de renome que já chefiara o Gabinete Imperial duas vezes,
entre 1880 e 1882 e por um curto período no ano de 1885.
Disse-lhe
também o major Sólon que uma suposta ordem de prisão
contra seu chefe havia sido expedida pelo governo imperial, versão
que convenceu finalmente o velho marechal a proclamar a República
no dia 16 e a exilar a Família Imperial sob as sombras
da noite. Assim se evitaria que a expulsão de D.Pedro II,
da Imperatriz Teresa Cristina, da Princesa Isabel e de seu marido,
o Conde d´Eu fosse impedida pela população
mais empobrecida, em cujo meio a família imperial era muito
estimada por seus atos de caridade.
Nada
houve de heróico nesse trágico acontecimento, considerando-se
que a República só veio por pressão de alguns
fazendeiros escravocratas, insatisfeitos com a Lei Áurea
e com as propostas não aceitas pelo governo imperial para
que eles fossem indenizados pela alforria de seus escravos, entre
outros acontecimentos relevantes. Para deixar isto mais claro,
basta mencionar que entre os deputados eleitos em 1889, que tomariam
posse no dia 20 de novembro, só havia dois republicanos,
o que evidencia bem o caráter de golpe militar e até
entreguista da proclamação da República.
O
fato foi saudado com euforia pelo enviado extraordinário
do Departamento de Estado Norte Americano, Robert Adams Jr., que,
ao escrever relatório sobre os acontecimentos, deixou isto
bem patente: "A família imperial partiu hoje. O Governo
de facto com o ministério foram estabelecidos, perfeita
ordem mantida, importante reconhecermos a república primeiro.
Adams" ("Imperial family sailed today. Government de
facto with ministry established perfect order maintained, important
we acknowledge republic first. Adams." - In SILVA, Hélio:
"1889: A República não esperou o amanhecer",
Porto Alegre: LP&M, p.371). Nesse mesmo dia, navios norte-americanos
navegavam pelas águas territoriais brasileiras, para auxiliar
o governo provisório da nova República na "imposição
da ordem", numa provocação agressiva à
Marinha do Brasil.
E
mais: o primeiro hino nacional do Brasil republicano foi a Marselhesa,
copiado da França; e sua primeira bandeira da nova ordem
foi uma réplica auriverde da bandeira norte-americana.
Até hoje o Brasil paga o preço por copiar outros
países imaginadamente "mais desenvolvidos" ao
invés de implantar seu próprio modelo nacional,
que se desenhava sob a bandeira do Império, dentro da Monarquia
parlamentarista!
No
contraponto dessa nada heroicidade dos golpistas, D. Pedro II,
pouco depois de chegar a Portugal a bordo da fragata Alagoas,
da Marinha Brasileira e no início de seu exílio,
como homem de princípios morais e éticos incomuns
recusava-se a aceitar os termos de um decreto do governo provisório
republicano que incluía a transferência à
sua pessoa de cinco mil contos de réis (equivalente hoje
a 4,5 toneladas de ouro ou aproximadamente R$ 2 bilhões).
Enfatizando que esse dinheiro pertencia ao povo brasileiro, em
seu lugar ele pediu que o substituíssem por apenas um travesseiro
cheio de terra brasileira, onde poderia repousar sua cabeça,
quando dormisse e também quando morresse.
Nasceu
a República, além da conspiração urdida
por grupos prejudicados, entre outros fatos, por causa da abolição
da escravatura, também pelas invencionices de um major,
a espada de um marechal, e por que não dizer, em meio à
disputa de egos feridos por amores mal correspondidos. Lembramo-nos
de sábias e proféticas frases do escritor Monteiro
Lobato em texto onde ele expõe os descalabros republicanos
que principiavam a fincar suas raízes no Brasil, que "tinha
um rei. Tem sátrapas. Tinha dinheiro. Tem dívidas.
Tinha justiça. Tem cambalachos de toga. Tinha Parlamento.
Tem ante-salas de fâmulos. Tinha o respeito do estrangeiro.
Tem irrisão e desprezo. Tinha moralidade. Tem o impudor
deslavado...". Um discurso absolutamente atual esse de Monteiro
Lobato!
Passaram-se
décadas antes que os despojos da Família Imperial
pudessem retornar ao Brasil e seus descendentes aqui colocassem
seus pés. Os restos mortais de D. Pedro II, falecido em
3 de dezembro de 1891, num singelo hotel de Paris; da então
Imperatriz Teresa Cristina, que morreu pouco depois de chegar
à cidade do Porto, em Portugal, no começo de seu
exílio; e da Princesa Isabel, que partiu deste mundo em
Paris em 14 de novembro de 1921, bem como de seu marido, o Conde
d´Eu, falecido em 1922 a bordo do navio que o trazia de
volta ao Brasil, repousam hoje no Panteão da Catedral de
São Pedro de Alcântara, em Petrópolis (RJ).
Deodoro,
nascido na cidade de Alagoas (atualmente Marechal Deodoro, AL)
em 5 de agosto de 1827, morreu em 23 de agosto de 1892 na cidade
do Rio de Janeiro. Como sua última vontade pediu que o
sepultassem em trajes civis, no que não foi atendido e
seu enterro teve toda a pompa e honras militares. Os motivos para
seu derradeiro desejo ele os guardou para sempre.
Em
15 de novembro, o que temos para comemorar?
*
Paulo Gomes Lacerda é ensaista
Contato:
news@brasilimperial.org.br
Para
download deste arquivo, clique aqui
|