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"Instruções para serem observadas
pelos Mestres do Imperador
na Educação Literária e Moral do Mesmo Augusto
Senhor."
Artigo
1.
Conhece-te a ti mesmo. Esta máxima... servirá de base
ao sistema de educação do Imperador, e uma base da qual
os Mestres deverão tirar precisamente todos os corolários,
que formem um corpo completo de doutrinas, cujo estudo possa dar ao
Imperador idéias exatas de todas as coisas, a fim de que Ele,
discernindo sempre do falso o verdadeiro, venha em último resultado
a compreender bem o que é a dignidade da espécie humana,
ante a qual o Monarca é sempre homem, sem diferença natural
de qualquer outro indivíduo humano, posto que sua categoria civil
o eleve acima de todas as condições sociais.
Artigo
2.
Em seguimento, os Mestres, apresentando ao Seu Augusto Discípulo
este planeta que se chama terra, onde nasce, vive e morre o homem, lhe
irão indicando ao mesmo tempo as relações que existem
entre a humanidade e a natureza em geral, para que o Imperador, conhecendo
perfeitamente a força da natureza social, venha a sentir, sem
o querer mesmo, aquela necessidade absoluta de ser um Monarca bom, sábio
e justo, fazendo-se garbo de ser o amigo fiel dos Representantes da
Nação e o companheiro de todas as influências e
homens de bem do Pais.
Artigo 3.
Farão igualmente os Mestres ver ao Imperador que a tirania, a
violência da espada e o derramamento de sangue nunca fizeram bem
a pessoa alguma...
Artigo 4.
Aqui deverão os Mestres se desvelar para mostrarem ao Imperador
palpavelmente o acordo e harmonia da Religião com a Política,
e de ambas com todas as ciências; porquanto, se a física
estabelece a famosa lei da resistência na impenetrabilidade dos
corpos, é verdade também que a moral funda ao mesmo tempo
a tolerância e o mútuo perdão das injúrias,
defeitos e erros; essa tolerância ou mútuo perdão,
sobre revelar a perfeição do Cristianismo, revela também
os quilates das almas boas nas relações de civilidade
entre todos os povos, seja qual for sua religião e a forma do
seu governo...
Artigo 5.
Lembrem-se pois os Mestres que o Imperador é homem; e partindo
sempre dessa idéia fixa, tratem de lhe dar conhecimentos exatos
e reais das coisas, sem gastarem o tempo com palavras e palavrões
que ostentam uma erudição estéril e prejudicial,
pois de outra forma virá o seu discípulo a cair no vicio
que o Nosso Divino Redentor tanto combateu no Evangelho, quando clamava
contra os doutores que invertiam e desfiguravam a lei, enganando as
viúvas e aos homens ignorantes com discursos compridos e longas
orações, e se impondo de sábios, embora sendo apenas
uns pedantes faladores.
Artigo 6.
Em conseqüência os Mestres não façam o Imperador
decorar um montão de palavras ou um dicionário de vocábulos
sem significação, porque a educação literária
não consiste decerto nas regras da gramática nem na arte
de saber por meio das letras; em conseqüência os Mestres
devem limitar-se a fazer com que o Imperador conheça perfeitamente
cada objeto de qualquer idéia enunciada na pronunciação
de cada vocábulo...
Artigo 7.
Julgo portanto inútil dizer que as preliminares de qualquer ciência
devem conter-se em muito poucas regras, assim como os axiomas e doutrinas
gerais. Os Mestres não gastem o tempo com teses nem mortifiquem
a memória do seu discípulo com sentenças abstratas;
mas descendo logo às hipóteses, classifiquem as coisas
e idéias, de maneira que o Imperador, sem abraçar nunca
a nuvem por Juno, compreenda bem que o pão é pão
e o queijo é queijo. Assim, por exemplo, tratando das virtudes
e vícios, o Mestre de Ciências Morais deverá classificar
todas as ações filhas da soberba distinguindo-as sempre
de todas as ações opostas que são filhas da humildade.
E não basta ensinar ao Imperador que o homem não deve
ser soberbo, mas é preciso indicar-lhe cada ação,
onda exista a soberba, pois se assim não o fizer, bem pode acontecer
que o Monarca venha para o futuro a praticar muitos atos de arrogância
e altivez, supondo mesmo que tenha feito ações meritórias
e dignas de louvor, e isto por não ter, em tempo, sabido conhecer
a diferença entre a soberba e a humildade.
Artigo 8.
Da mesma sorte, tratando-se das potências e das forças
delas, o Mestre de ciências físicas fará uma resenha
de todos os corpos computando os grãos de força que tem
cada um deles, para que venha o Imperador a compreender que o poder
monárquico se limita ao estudo e observância das leis da
Natureza... e que o Monarca é sempre homem e um homem tão
sujeito, que nada pode contra as leis da Natureza feitas por Deus em
todos os corpos, e em todos os espíritos.
Artigo 9.
Em seguimento ensinarão os Mestres ao Imperador que todos os
deveres do Monarca se reduzem a sempre animar a Indústria, a
Agricultura, o Comércio e as Artes; e que tudo isto só
se pode conseguir estudando o mesmo Imperador, de dia e de noite, as
ciências todas, das quais o primeiro e principal objeto é
sempre o corpo e a alma do homem; vindo portanto a achar-se a Política
e a Religião no amor dos homens. E o amor dos homens é
que é o fim de todas as ciências; pois sem elas, em vez
de promoverem a existência feliz da humanidade, ao contrário
promovem a morte.
Artigo 10.
Entendam-me porém os Mestres do Imperador. Eu quero que o meu
Augusto Pupilo seja um sábio consumado e profundamente versado
em todas as ciências e artes e até mesmo nos ofícios
mecânicos, para que ele saiba amar o trabalho como principio de
todas as virtudes, e saiba igualmente honrar os homens laboriosos e
úteis ao Estado. Mas não quererei decerto que Ele se faça
um literato supersticioso para não gastar o tempo em discussões
teológicas como o Imperador Justiniano; nem que seja um político
frenético para não prodigalizar o dinheiro e o sangue
dos brasileiros em conquistas e guerras e construção de
edifícios de luxo, como fazia Luís XIV na França,
todo absorvido nas idéias de grandeza; pois bem pode ser um grande
Monarca o Senhor D. Pedro II sendo justo, sábio, honrado e virtuoso
e amante da felicidade de seus súditos, sem ter precisão
alguma de vexar os povos com tiranias e violentas extorsões de
dinheiro e sangue.
Artigo 11.
Sobretudo, recomendo muito aos Mestres do Imperador, hajam de observar
quanto Ele é talentoso e dócil de gênio e de muita
boa índole. Assim não custa nada encaminhar-lhe o entendimento
sempre para o bem e verdade, uma vez que os Mestres em suas classes
respectivas tenham com efeito idéias exatas da verdade e do bem,
para que as possam transmitir e inspirar ao seu Augusto Discípulo.
Eu não cessarei de repetir aos Mestres que não olhem para
os livros das Escolas, mas tão somente para o livro da Natureza,
corpo e alma do homem; porque fora disto só pode haver ciência
de papagaio ou de menino de escola, mas não verdade nem conhecimento
exato das coisas, dos homens, e de Deus.
Artigo 12.
Finalmente, não deixarão os Mestres do Imperador de lhe
repetir todos os dias que um Monarca, toda a vez que não cuida
seriamente dos deveres do trono, vem sempre a ser vitima dos erros,
caprichos e iniqüidades dos seus ministros, cujos erros, caprichos
e iniqüidades são sempre a origem das revoluções
e guerras civis; e então paga o justo pelos pecadores, e o Monarca
é que padece, enquanto que seus ministros sempre ficam rindo-se
e cheios de dinheiro e de toda sorte de comodidades. Por isso cumpre
absolutamente ao Monarca ler com atenção todos os jornais
e periódicos da Corte e das Províncias e, além
disto, receber com atenção todas as queixas e representações
que qualquer pessoa lhe fizer contra os ministros de Estado, pois só
tendo conhecimento da vida pública e privada de cada um dos seus
ministros e Agentes é que cuidará da Nação.
Eu cuido que não é necessário desenvolver mais
amplamente estas Instruções na certeza de que cada um
dos Mestres do Imperador lhe adicionará tudo quanto lhe ditarem
as circunstâncias à proporção das doutrinas
que no momento ensinarem. E confio grandemente na sabedoria e prudência
do Muito Respeitável Senhor Padre Mestre Frei Pedro de Santa
Mariana, que devendo ele presidir sempre a todos os atos letivos de
Imperador como seu Aio e Primeiro Preceptor, seja o encarregado de pôr
em prática estas Instruções, uniformizando o sistema
da educação do Senhor Dom Pedro II, de acordo com todos
os outros Mestres do Mesmo Augusto Senhor".
Paço
da Boa Vista no Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1838
Marquês de Itanhaém - Tutor da Família Imperial
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