

|
O céu da bandeira do Brasil José Roberto V. Costa, Astronomia no Zênite A BANDEIRA DO BRASIL, uma das mais belas e sugestivas do mundo, é também a única a possuir uma esfera celeste. Adotada em 19 de novembro de 1889, seu círculo interno, em azul, corresponde a uma imagem dessa esfera, inclinada segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro às 12 horas siderais (aproximadamente 8 e meia da manhã) de 15 de novembro de 1889 (Proclamação da República) e cada estrela representa um Estado da federação. Trata-se da mais completa ilustração celeste já imaginada para uma bandeira nacional. Cada vez que um Estado é extinto retira-se sua estrela. Quando ocorre uma fusão, apenas uma permanece para representar o novo Estado. Novas estrelas podem ser acrescentadas, na medida da criação de novos Estados, sempre obedecendo a configuração original. A capital federal é representada pela estrela polar do sul, em torno da qual todas as demais tem um movimento aparente. Abaixo, uma descrição de cada uma das nove constelações hoje presentes na bandeira e a relação entre estrelas e Estados.
Cruzeiro do Sul (Cru)
O Cruzeiro do Sul é uma das mais significativas constelações do céu meridional. Sua estrela Alpha, também chamada Estrela de Magalhães, passa no meridiano da cidade do Rio de Janeiro no início da manhã de 15 de novembro. A constelação é uma referência para se localizar o ponto cardeal Sul. Basta prolongar o eixo maior da cruz cerca de quatro vezes e meia, na direção da sua base, e então imaginar uma vertical até o horizonte: ali será o Sul geográfico. Escorpião (Sco)
Escorpião é uma belíssima constelação zodiacal facilmente reconhecível no céu. Sua estrela mais brilhante, Antares, é uma gigante vermelha, na verdade um sistema duplo localizado a 604 anos-luz do Sol. Escorpião fica numa região do céu rica em objetos celestes observáveis com pequenos instrumentos. Cão Maior e Triângulo Austral (CMa e TrA)
A constelação do Cão Maior possui a estrela mais brilhante do firmamento: Sírius. De cor branco azulada, ela está a 8,7 anos-luz do Sol. Quatro estrelas do Cão Maior estão atualmente na bandeira. Elas representam o Mato Grosso, Tocantins (criado em 1988), Rondônia (que se tornou Estado em 1981) e Amapá (1988). O Triângulo Austral é uma constelação um pouco maior que sua irmã dos céus do norte, a constelação do Triângulo. Suas três estrelas principais estão na bandeira representando os Estados da Região Sul. Cão
Menor, Hidra Fêmea, Virgem,
O Cão Menor é um pequena constelação próxima de Orion, localizada facilmente graças a sua estrela mais brilhante, Prócion, que se situa a 11,3 anos-luz de distância. Sendo a única estrela que pertence ao hemisfério celeste Norte, Prócion foi designada para significar que o país também possui parte de seu território no hemisfério Norte. Hidra Fêmea, ou simplesmente Hidra, é uma ampla constelação cuja estrela mais brilhante é Alphard, a 148 anos-luz. Hidra Fêmea tem apenas duas estrelas na bandeira, representando os Estados do Mato Grosso do Sul (criado em 1979) e Acre (que se tornou Estado em 1962). Virgem é uma bela constelação zodical, ligada a figura feminina e à agricultura. Na bandeira, apenas a estrela mais brilhante de Virgem (Spica) está representada. Ela figura solitária, acima da faixa "Ordem e Progresso", também para significar que o Brasil estende parte de seu território ao hemisfério Norte. Carina é o casco do navio Argus, que figura na bandeira em memória da navegação. Apenas Canopus está representada. Ela é a segunda estrela mais brilhante do céu. Oitante é uma constelação circumpolar de brilho fraco. Sua estrela Sigma indica está bem próxima do pólo celeste Sul. Do nosso ponto de vista, é em torno dela que giram todas as demais estrelas do firmamento. Por causa desta posição de destaque, Sigma do Oitante foi escolhida para representar o Município Neutro da União (Brasília). Nenhuma outra estrela conferiria tal destaque. Considerações finais MUITO ALÉM DE UMA SIMPLES QUESTÃO DE CIVISMO, conhecer bem a bandeira do Brasil e o seu simbolismo é um mergulho na história. O círculo central em azul, que representa a esfera celeste, é herança do culto português pela esfera manuelina, simbolizando as grandes viagens de exploração marítimas. Neste globo celeste, porém, uma faixa branca sintetiza um mote positivista de Auguste Comte: "o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim; famoso à época e através do qual muitos republicanos se reviam. A faixa branca já foi interpretada como simbolizando o rio Amazonas. Contudo, tal como na faixa equivalente da esfera manuelina, ela aparece representando o zodíaco, a região do céu percorrida pelo Sol em seu movimento anual aparente. O relacionamento entre o verde e as matas, o amarelo e as riquesas e o azul ao céu nunca existiu historicamente. O amarelo, por exemplo, recorda o período imperial e é, poeticamente, a representação do Sol. Tanto o azul quanto o verde ou o branco remontam a nacionalidade lusitana. O retângulo e o losango estão presentes com as mesmas cores na bandeira imperial, mostrando que a bandeira republicana não rompeu definitivamente com o Império. O losango representa a mulher, na posição de mãe, esposa, irmã e filha. A esfera é o antigo símbolo do mundo, unindo o Brasil a Portugal através de D. Manuel, em cujo reinado se deu o descobrimento. Vale destacar a ausência do vermelho e do preto, excluindo da bandeira lembranças as guerras, ameaças e agressões. A bandeira do Brasil é um pendão idealista e limpo, estando próxima aos antigos estandartes, erguidos para coreografar o bem-estar e o jubilo aos deuses. Grandezas
Somos levados "para trás" das estrelas. E não há outra maneira de representar os astros numa esfera que respeite as suas posições relativas. As estrelas da bandeira do Brasil aparecem com cinco pontas, como é costume heráldico, e com cinco dimensões diferentes, procurando representar o brilho aparente das estrelas (magnitude), embora sem correspondência direta com as magnitudes astronômicas. Foram consideradas cinco escalas de magnitude: 0,30, 0,25, 0,20, 0,14 e 0,10 vezes 1/14 da largura da bandeira, que foi concebida na proporção 14 x 20. Elas são classificadas em ordem crescente de luminosidade: as mais brilhantes são chamadas de primeira grandeza (aquelas que primeiro se vêem após o pôr-do-sol), seguidas pelas estrelas de segunda grandeza e assim sucessivamente, até a sexta grandeza, no limiar da visibilidade. A bandeira do Brasil mostra estrelas de cinco diferentes grandezas, visíveis a olho nu de qualquer local do país (embora em diferentes épocas do ano).
As estrelas e seus significados A ESTRELA ALPHA DA CONSTELAÇÃO DE VIRGEM, chamada Spica, aquela que aparece solitária sobre a faixa "Ordem e Progresso", não representa o Distrito Federal na bandeira do Brasil. Spica, que no céu real se encontra mais ao norte, representa o Estado do Pará. O Distrito Federal é representado por sigma do Oitante, uma estrela que na prática está no limiar da visibilidade a olho nu. Contudo, a escolha se justifica plenamente ao verificarmos sua posição bem próxima ao pólo celeste Sul. Desse modo, ela nunca nasce ou se põe vista do território brasileiro (está sempre no céu, em qualquer dia e horário), e além disso todas as demais estrelas descrevem arcos em torno de Sigma Octantis. Na bandeira, três constelações são facilmente reconhecíveis: o Cruzeiro do Sul, o Triângulo Austral e o Escorpião. Algumas estrelas têm uma história ilustre e a sua presença está carregada de simbolismo. Spica, por exemplo, é a única estrela que aparece ao norte da faixa branca e sua presença indica que o país tem parte de seu território no hemisfério norte (ao norte do equador). Essa estrela aparece deslocada para norte da faixa, na bandeira, mas na realidade está ao sul da linha central do zodíaco (a eclíptica). Tal fato distorce conscientemente a sua posição celeste, revelando a extensão territorial do Brasil. Nenhum outro país com dimensão geográfica semelhante ocupa parte dos dois hemisférios.
Para os republicanos, a agricultura era uma ferramenta essencial de desenvolvimento e Spica faz referência a deusa Deméter (ou Ceres, para os romanos), deusa da agricultura, geralmente representada com uma espiga de cereal, exatamente a estrela Spica (espiga). Mas os criadores da bandeira insistiram, sobretudo, no significado desta estrela na história da ciência. De fato, a observação de Spica está ligada à descoberta da precessão dos equinócios por Hiparco (190-120 a.C.), um dos acontecimentos mais significativos da Astronomia antiga. Um
pouco mais abaixo aparece a estrela Canopus, da antiga constelação
de Argus (atualmente Carina). Ela recorda a lenda dos argonautas,
que empreenderam a viagem a Cólquida para se apoderarem do
"velo de ouro", a pele dourada do carneiro possuidor da
Razão. |
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||