|
Carta
aos brasileiros
Quis
a Providência Divina que, há vinte e cinco anos, recaísse
sobre minha pessoa o múnus da Chefia da Casa Imperial do Brasil.
O transcurso desta data particularmente significativa e, mais ainda,
as condições dramáticas pelas quais passa o Brasil,
me impõem o dever de um pronunciamento. Faço-o pela diligência
e pelo desvelo que me animam enquanto Príncipe brasileiro.
Pelo falecimento de meu saudoso Pai, o Príncipe D. Pedro Henrique
de Orleans e Bragança, deu-se naturalmente minha ascensão
à condição de Chefe da Casa Imperial. Permita-se-me,
pois, que para sua figura de Príncipe católico eu volte,
antes de tudo, meu olhar filial e a ele dedique minhas primeiras palavras
desta carta.
Meu Pai foi no Brasil - em tempos em que, infelizmente, já grassava
a desagregação familiar - um modelo de chefe de família.
Com a ajuda preciosa e incansável de minha querida Mãe,
inculcou-me ele - bem como a todos os meus onze irmãos e irmãs
- a noção dos deveres de Príncipes e das obrigações
para com a Pátria.
Senhor de uma sólida cultura, meu pai voltou do exílio
na esperança de empreender ampla atuação com vistas
a esclarecer os brasileiros sobre as vantagens da forma monárquica
de governo, na qual via a solução normal para os problemas
do Brasil. Mas como para ele a restauração monárquica
não constituía uma esperança pessoal e muito menos
uma ambição política particular, logo percebeu
que não era possível nem oportuno desenvolver a ação
pública que tanto almejava.
Cônscio das limitações que as circunstâncias
políticas lhe impunham, não deixou, entretanto, de em
determinados momentos fazer ouvir sua voz, sempre dentro da mais estrita
legalidade, dando mostras vivas de como, na condição de
herdeiro legítimo ao Trono, se debruçava com afinco sobre
a realidade do País.
Diante da admiração e respeito que, em sua generalidade
e até sem distinção de colorido político,
os brasileiros conservavam para com a Família Imperial, entendeu
ele ainda o papel de natureza social que cabia à Família
Imperial desempenhar no panorama nacional, "um conjunto de tradições
e valores morais cuja ação de presença no Brasil
contemporâneo se exerce de uma maneira discreta, porém
profunda e eficaz", segundo suas próprias palavras.
Espelhei-me no exemplo paterno, de catolicidade, de fidelidade a princípios,
de amor ao Brasil, nestes vinte e cinco anos de Chefia da Casa Imperial.
Como ele, segui o exemplo de meus maiores na condução
desta missão, acompanhando com uma atenção feita
de solicitude e devotamento à evolução das circunstâncias
de nossa realidade nacional.
Entretanto, essas mesmas circunstâncias exigiram de mim uma atitude
de maior presença no panorama brasileiro. Assim, tive a alegria
de contribuir, de modo decisivo, para uma mudança marcante na
situação da corrente monárquica no Brasil, ao dirigir
aos constituintes de 1988 uma carta que viria a ser determinante para
o fim da cláusula pétrea e para a realização
do Plebiscito sobre forma e regime de governo. A realização
de tal Plebiscito exigiu igualmente de mim e de meus irmãos -
com merecido destaque para meu querido irmão, D. Bertrand, Príncipe
Imperial do Brasil - uma presença marcante na cena pública.
Operou-se assim uma transformação fundamental para a corrente
monárquica, sobretudo após o expressivo resultado obtido
nas urnas. Deixou ela de ter sua liberdade cerceada e de ser vista como
um diminuto grupo de utópicos saudosistas, para ganhar foros
de cidadania e, mais ainda, se tornar uma corrente de pensamento e de
ação de reconhecida relevância.
Após a realização de tal Plebiscito, a Família
Imperial recolheu-se ao perfil discreto de intervenção
na cena pública que a caracterizara anteriormente, na medida
em que a mudança de cenário o permitia. Continuou ela
a abster-se de uma interferência ativa no embate dos interesses
e paixões das forças que predominam no cenário
político do País, não se eximindo, entretanto,
de seguir de perto e com atenção tudo o que aqui se passa
e quanto no exterior diz respeito ao Brasil.
Hoje, uma vez mais, diante das circunstâncias de suma gravidade
em que se encontra o Brasil, sinto-me obrigado a pronunciar-me enquanto
Chefe da Casa Imperial. Levam-me a isso diversos fatores, entre os quais
os apelos de monarquistas de variados pontos do País e até
de brasileiros sem especiais simpatias pela forma de governo monárquica,
os quais consideram que, na condição de continuador de
uma linhagem tão intimamente unida aos destinos do Brasil, deveria
externar minhas considerações a respeito do momento Pátrio.
*
* *
O Brasil
é atualmente sacudido por uma somatória de crises de naturezas
diversas - morais, ideológicas, políticas, sociais, institucionais.
A entrelaçar-se em todas elas, até uma crise religiosa,
fruto das dissensões que perpassam os ambientes católicos
e que vão repercutindo em nossa população de modo
palpável. Talvez nunca, desde sua Independência, o País
tenha atravessado um momento tão grave e de tantos perigos para
seu futuro.
Após um processo político, cujas origens e desenvolvimento
não é o momento de analisar, a opinião pública
assiste ao triste espetáculo do desmoronamento das instituições
públicas e do enfraquecimento do Estado, sem precedentes em nossa
história. Processo tão mais grave, uma vez que revela
a intenção de impor a nosso País o domínio
de ideologias alienígenas e tão distantes do sentir e
pensar de nosso povo. Na história recente tanto se tem falado
de liberdade e, em nome dela, quantos pensam em caminhar rumo à
tirania!
A avalanche desconcertante de desmandos, indignidades, atos de corrupção
e até mesmo de crimes, perpetrados em altas esferas do Poder
público, geram em nosso povo um misto de desagrado, de inconformidade,
de indignação. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação
de impotência diante da magnitude do ocorrido e da impossibilidade
prática de reagir.
Um dos mais inapreciáveis bens e legados de nossos maiores é
sem sombra de dúvidas a unidade nacional, plasmada por séculos
de Civilização Cristã, desde que as naus de Cabral,
marcadas pela Cruz de Cristo, aqui aportaram, trazendo em seu bojo promessas
de riquezas espirituais e culturais.
Ora, é precisamente sobre as ameaças a esta unidade que
recaem minhas principais preocupações. Vejo com apreensão
acirrarem-se os ânimos em torno das mais diversas questões.
Como que por impulsos misteriosos, tenta-se jogar brasileiros contra
brasileiros em embates fratricidas, muitas vezes com o fantasma da luta
de classes como fundo de quadro.
No nosso interior, verdadeiras hordas de agitadores se atiram de modo
inclemente contra aqueles brasileiros que, em um esforço abnegado,
aproveitam, pelas vastidões desse Brasil, as riquezas de nosso
solo.
Mais ainda, vozes exóticas se fazem ouvir para atacar como maléfica
qualquer idéia de sadio progresso humano, acenando com soluções
radicais de um completo primariam cultural e de uma inteira indigência
material.
Intelectuais utópicos, políticos eivados de estranhas
ideologias, adeptos de errôneas correntes teológicas, forçam
a implantação de políticas públicas de conotação
racial que ameaçam a integração harmônica
reinante em nosso País, podendo abrir no tecido social, elas
sim, em nome de um igualitarismo radical, as chagas de uma discriminação
e de um racismo até agora inexistentes.
Outros tentam ainda, de tempos em tempos, com base em explosões
violentas de inequívoca artificialidade, criar em nosso território
"nações", cujas primeiras vítimas serão
precisamente nossos irmãos indígenas que, em sua grande
maioria, apenas anseiam por ser elementos positivos nessa soma de raças
e de povos que aqui se foi constituindo.
Nesse quadro, já carregado, irrompe com uma fúria e uma
precisão desconhecidas até agora, a mão do crime,
lançando o caos em grandes cidades, aterrorizando populações
e fazendo vítimas inocentes. Enquanto de cá, de lá
e de acolá se fazem ouvir estranhas justificativas de tais atos,
como nascidos de uma injustiça social gritante e iníqua.
Ao considerar o panorama internacional sou obrigado a reconhecer que
esse ambiente de convulsão, alimentado artificialmente em nosso
Brasil, está também ele presente. As relações
entre nações encontram-se impregnadas da idéia
de confrontos acrimoniosos, de países ricos contra países
pobres, de países desenvolvidos contra subdesenvolvidos, de países
do norte contra países do sul, em designações simplistas
e arbitrárias.
E se tais desavenças e tensões são marcantes na
cena mundial o são particularmente no âmbito sul-americano,
de si normalmente tranqüilo.
Nosso querido Brasil, tanto na vigência da Monarquia, como já
no regime republicano, destilou uma das mais sutis escolas diplomáticas,
a qual levou o País a exercer, por diversas vezes, na cena internacional
papel de destaque, sempre de harmonizador dos interesses em disputa.
É, pois, com preocupação redobrada que vejo o Brasil
aparecer cada vez mais, na cena latino-americana, e na cena internacional,
como um fator de discórdia e de acirramento de tensões.
*
* *
O conjunto
dessas considerações me traz à mente as palavras
que em 1987 dirigi aos deputados constituintes e que me permito aqui
repetir: "Estou persuadido de que nosso povo, altaneiro, religioso
e bom, nada tem de comum com as vozes enganadoras que de todas as partes
se levantam, fazendo ouvir sentimentos de discórdia e anseios
de convulsão".
Na verdade, o Brasil sempre anelou por uma sociedade regida pela harmonia
cristã, em que reinassem a doçura, a colaboração
das pessoas umas com as outras, a proteção e dedicação,
a bondade e fidelidade, o gosto de ver a felicidade do semelhante, e
até mesmo a grandeza e superioridade do próximo.
O Brasil herdou do português a bondade e a cordura, do índio
uma grande intuição, da raça negra a capacidade
de dedicar-se desinteressadamente. E dessa combinação
feliz resultou esse povo que soube receber em seu seio generosamente
pessoas de todas as raças e povos, que aqui se mesclam e se misturam
harmonicamente.
Como que a combinar com esta alma generosa e disposta a fazer o bem,
quis a Providência dotar-nos de um território incomensurável,
com recursos a bem dizer inesgotáveis, em que temos todos os
climas, exceto os desertos de areia e de gelo.
O Brasil não tem, nem nunca teve desígnios imperialistas,
no sentido pejorativo do termo. E sempre ansiou por utilizar seus dons
de alma e materiais como fator de harmonia no convívio internacional.
E se houve momentos em que se ergueu com brio e ardor, até em
armas, foi porque se sentiu atingido nesse senso de justiça que
- apesar de pouco comentado - lhe é tão peculiar. Não
de um mal entendido senso de justiça, nascido da inveja e com
intuitos niveladores, mas decorrente da noção do que a
cada indivíduo e cada povo cabe legitimamente.
E assim foi o Brasil, ao longo dos tempos - é verdade que, por
vezes, com debilidades e fraquezas - procurando realizar sua vocação
providencial, buscando um verdadeiro progresso intelectual e material,
a fim de poder exercer realmente a sua influência benéfica
no âmbito individual e internacional.
*
* *
Seguindo
as tradições de serviço e de desvelo que caracterizaram
a Família Imperial - tanto na época em que dirigia os
destinos do País, como posteriormente, nos anos do exílio
a que a obrigaram as vicissitudes políticas ou já depois
integrada à vida do País - apelo a todos os brasileiros,
independentemente do colorido político que os anima, e muito
particularmente àqueles que comungam dos ideais monárquicos,
para que, neste momento decisivo de nossa história, procurem
discernir e caracterizar os fatores de desagregação que
atuam em nossa cena pública, a eles opondo uma ação
esclarecedora, sempre pacífica, mas determinada. E não
se deixem envolver pelas manobras inescrupulosas daqueles que buscam,
a todo o custo, dilacerar nossa unidade nacional.
Dom Pedro I, seguindo as melhores tradições da Casa de
Bragança, houve por bem consagrar o Brasil a Nossa Senhora Aparecida.
É para Ela que, com veneração e confiança,
ao final destas considerações, se voltam meu olhar e minhas
preces. Para que uma vez mais faça sentir seu desvelo e sua proteção
maternais sobre este querido Brasil, a fim de que prossiga e se regenere,
uno e invicto nas vias gloriosas da Civilização Cristã,
rumo à peculiar grandeza - também cristã - que
é o destino específico de nossa Pátria.
Rio de Janeiro, 4 de junho de 2006
Príncipe
Dom Luiz de Orleans e Bragança
|